Não consigo desenhar-te. Rebusquei nos mais interditos campos da minha mente, numa tentativa de te tirar da cabeça, numa esperança cega de te deixar para sempre no papel, mas a minha mão não obedeceu. Talvez porque não me pertences, porque não sou digna de retratar o teu rosto, porque não conheço os teus traços e nunca sequei as lágrimas que por lá correm, porque não sei os segredos que se escondem no teu olhar impenetrável, porque não estou autorizada a recordar-te.
Queria, contra a minha vontade consciente, criar uma imagem tua só para mim, uma imagem que me bastasse, uma imagem perfeita da expressão dos teus olhos e da ligeira curva do teu sorriso. Mas nunca poderia captar coisas como a tua voz atrás de mim, aquela palavra que chega como um gato que se movimenta silenciosamente, que se aproxima discretamente e se faz ouvir de repente, quando nem nos damos conta que está presente. Não consigo igualmente captar os teus longos silêncios, a tua calma aparente enquanto o interior fervilha e grita para ser ouvido. Sente-se no ar a vibração em sintonia com o meu coração que bate acorrentado e amordaçado por mim mesma.
Talvez não te consiga desenhar porque não sou capaz de olhar nos teus olhos. Mas o teu vulto felino move-se no meu pensamento e atravessa-se na frente do meu olhar com uma clareza abstracta que me aterroriza e paralisa.
Preciso de te desenhar! Preciso de deitar-te cá para fora, cuspir-te de mim e fechar as portas, proteger-me do meu próprio desejo. Sou uma ladra de vidas alheias, uma fraude! Não mereço recriar-te com as minhas mãos sujas.
Não…não consigo desenhar-te porque seria tornar-te real em mim, deixar-te ficar. Enquanto não for capaz de te de desenhar é porque só entras nos domínios do meu inconsciente de visita. E depois partes.
Mas espera…desenhei-te por palavras! E desenhar-te-ía mais mil vezes esta noite, descreveria doentiamente cada pormenor até deixares de ter significado, até morreres na repetição, até te perderes nas palavras! Não quero mais ter de me apoderar de músicas, sonhos e sentimentos que não me pertencem, não aguento a culpa, não suporto o segredo e a vergonha.
Mas só por esta noite…queria desenhar-te…só para mim. Traçar cada linha com os meus dedos, com os meus lábios, apagar os riscos que nos separam, fundir-nos num só desenho, numa só imagem…e pintar uma outra realidade.
Disturbed
terça-feira, 12 de junho de 2007
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
2 comentários:
Quando amamos, sem explicação possível, mergulhamos num ciclo de pormenores corporais. Amar deixa de ser uma pulsação interior e passa a ser um mapa de linha pessoais!
Natas
Só muda a forma do desenho, ao desenhares com palavras, ao descreveres a um nivel intelectualmente gráfico algo... n consegues transpor com o lápis mas descarregas bem na caneta (ou no teclado)...
olha... descarrega... =S
bj
G.F.
Enviar um comentário