sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A casa


Um pedacinho da "tal" casa


Morgan Le Fay

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Aula II

Ao som de: Spelling Nadja - Show me dreams

Mordo o lábio enquanto tocas.
Baixo o olhar para o teclado quando sinto os olhos repletos de lágrimas. Não posso chorar. Não me podes ver chorar. Não, não, não!
(Estás a perceber até agora?)
Aceno que sim com a cabeça. Por instantes tinha-me perdido em pensamentos vagos e deixado de tomar atenção aos acordes.
Abandono-me à melodia e aos movimento dos teus dedos. A emoção toma conta de mim. Ficaria suspensa em momentos assim, se me fosse possível. Mas o relógio não pára. 60 minutos semanais.
("RRáquêl", sabes que eu não gosto disto assim...temos de andar para a frente com isto!)
Não estás contente comigo. Isso desorienta-me ainda mais. Sei bem que não tenho correspondido às expectativas...mas eu não sou como tu! Sou instável...demasiado dispersa...
Toca apenas! Deixa-me ficar a ouvir. Não páres para me recriminar. Hoje a angústia que sinto é física, palpável. Só quero ser submersa pela tua música, por ti...hoje a solidão que tenho em mim é insuportável...
(O que é que fazes sábado à noite?)
O véu que se havia formado entre os meus olhos e a realidade levantou-se bruscamente. Balbuciei "Hum?".
(O que é que fazes sábado à noite? Era para te fazer um convite. Vou tocar num bar e era pa ires ver o género de música que eu realmente toco...às vezes tem-se uma ideia errada do professor...)
Cabeça entra em turbilhão.
Alargar a tua presença para lá das paredes da sala de aula?
Transportar-te para o mundo lá fora?
Inserir-te na minha realidade quotidiana?
Quebrar por momentos a relação professor/aluna?
...
Como desejo ir...
Eu sei o género de música que tocas. Acerca disso não alimento ilusões. Aquilo que ouvimos é tão semelhante como o sol e a neve.
Mas não importa. Quando fazes soar o piano tudo se transforma, tudo se relativiza, quer toques o "Malhão, malhão" ou o "Atirei o pau ao gato".
Quero ir! Quero sentar-me no escuro, na multidão...e ficar horas a ouvir-te e a escrever sobre cada movimento que fazes, a contar o número de vezes que o cabelo te cai para o rosto, a interiorizar as tuas expressões...a sonhar-te em segredo.

Contraio-me por dentro.
Engano-me nas notas.
Volto a enganar-me.
Corriges os meus dedos gelados e inseguros.
Aproximas-te.
A tua mão cai-me para a perna acidentalmente.
Estremeço.
De perfil os teus olhos são verdes. De frente são azuis. Mais uma ilusão, como tudo o que vive em mim.
Tictac tictac tictac
(...e pronto...próxima aula quero isto feito)
Não. Ainda não. Mais um bocadinho. Toca mais um bocadinho.

***

N.- Uma frase desta música diz: "A real woman knows a real man always comes first" É um bocado machista.
E hoje em dia já não é nada assim! O que é que vem em primeiro lugar numa relação?
Eu- Tudo, menos...
N.- ...a outra pessoa!
Eu- Exacto...
N- Temos de fazer aquilo que gostamos, o que nos faz sentir bem...Tenho colegas que se a namorada pedisse "Ah...deixa a música...e mais isto e aquilo" Xau xau!
Eu- Pois...eu a partir do momento em que me apetecia mais ir para a clínica do que estar com o meu namorado...fui para a clínica...
N- ...estas coisas às vezes são complicadas...
Eu- São sempre complicadas.

E cada vez mais.
Cada vez mais.
Enterro-me. Cavo a minha própria sepultura. Com as minhas mãos.
Perco-me.
Deleito-me com a magia do impossível, do abismo...
Sábado...
...sábado...
Ir é consagrar-me perdida.
Não ir é fugir.
Ir é ferir-me com a minha inconsciência.
Não ir é ferir-me em plena consciência.
É mais uma cicatriz garantida.
Divirto-me a fazê-las e a coleccioná-las.
É a única explicação plausível.
Sou louca.
Ou estou louca.


Morgan Le Fay

domingo, 20 de janeiro de 2008

the brutal art of lying.

Apercebi-me hoje que a idade me deu um enxerto de porrada. Ou a idade ou aquilo que fui fazendo ao longo destes anos. Não foram assim tantos, eu sei, mas há dias em que 21 anos já pesam demasiado. Eu nunca acreditei naquela treta do: "tudo o que dás recebes a dobrar." Mas, a cada dia que passa, apercebo-me que sim. Tudo tem consequências. As marcas ficam. Nódoas negras, profundas, na pele. Tenho o corpo dorido. Cada movimento implica uma dor profunda.
Sempre conduzi a minha vida à velocidade das coisas que nos faltam. Que nos fogem. Sempre me deixei levar. Conheci Al Berto e perdi-me nas suas viagens, nos seus desvaneios, na sua força (ou fraqueza)de querer viver tudo intensamente. Não perder nada. Seguir todos os caminhos. Amar. Saber amar de todos, o seu melhor. Saber encontrá-lo. Usar isso para sermos mais felizes instantaneamente.

- Pára.
- Respira fundo.
- Construiste a tua vida numa mentira.
- Falhaste muitas vezes a pessoas que gostavam de ti.
- Falhaste mais vezes ainda ao cumprimento dos teus objectivos.
- Enumera as razões que te levaram a isso.
- 1 razão.

- Egoismo? Não......
- Não sei.
- Sabes.... Aí, bem no fundo. Sabes.


Tudo tem consequências.
Tudo tem consequências.
Fumar um charro. Preciso de drogas para pensar. Preciso de me acalmar. Preciso de concentração. Preciso de me acalmar. Preciso. Preciso de paz. Não. Consciência tranquila. Preciso de ter a consciência tranquila.
Eu sei.
Eu sei.
Penso.
"And we fall into this. We fall into this. And we fall into this. We fall."

Não consigo estudar. Não consigo dormir. Não consigo parar de tremer. Não consigo parar. Quero desligar o cérebro e não consigo.
Fumo. Fumo muito. Deito-me tarde. Ontem bebi até quase cair para o lado. Mandei uma mensagem à M. a dizer: "Olha M., sim. Comi o gajo. Comemo-nos. Foi muita bom. Não percebo o que é que tens a ver com isso. Não te contei. Menti-te. Não queriamos que ninguém soubesse. Eu sei que me pediste para não o fazer, mas queriamos os dois. Aconteceu e eu estou-me nas tintas para aquilo que tu achas. E se não quiseres voltar a falar comigo estás no teu direito. Tasse benne. Xau."
Tive que o fazer. Não suportava já mais o peso de uma mentira. Não quero mais mentiras na minha vida. Não quero. Não preciso. Já menti demais. Já não aguento.
O P. disse-me uma coisa que me deu a volta à cabeça: "Ele não confia em ti." Não é que eu já não o soubesse. Só que nunca o tinha assimilado. Foi uma facada no peito. (já explico!)

Pausa.
Consegui dormir. Provavelmente do àlcool ou da droga, sei lá.
Gosto de acordar de manhã, com uma ressaca do caralho, enroscada em mim mesma. Lágrimas nos olhos. Pensar naquele gajo que me fode a cabeça toda.
Ao acordar tenho que ouvir uma música qualquer. Hoje foi Counting Crows.

“Says she's thinking of jumping
She says she's tired of life
She must be tired of something”


Estou mesmo.

Round Here.

Estava yirada para a parede. Rodei sobre mim mesma, para o lado direito. Olhei para a janela e vi um céu azul imenso e brilhante entrar me pelo quarto adentro. Pensei: ‘ Levanta-te, caralho! Já chega desta merda!’ Levantei-me, liguei o messenger, combinei com o P., vesti-me, fiz uma sandes, saí para a rua. Esperei-o sentada no muro, branco-velho, da casa da minha avó. Fomos para a esplanada. Uma tarde normal. (qualquer dia gostava que viessem partilhá-la comigo.) Estava a falar com o P. Tenho uma faca espetada no peito. Temos os dois, sim. Mas eu queria contar-te o que é que se passou. E contei. O J. Sim. Gosto mesmo dele. Mesmo. No outro dia veio falar comigo e pediu-me se podiamos ir sair um bocadinho, porque ele queria falar comigo fora da internet. Estivemos a falar no miradouro do castelo. - Vista para o vale do Tejo. Lisboa ao fundo.

- J: "Gosto muito de ti, mas a minha vida não dá. Não acho que consiga dar-te aquilo que procuras."

- S. "Fodasse, isto podia ser bué fixe, mas yah, compreendo."


Mas depois pensei e com o que o P. me disse: "Ele não confia em ti. E as tuas curtes não ajudam." Ele não confia em mim. Ele não confia em mim. Eu sei que todos temos um lado negro, mas nunca tinha percebido que o meu podia ser tão fundo. Estou a perder uma das pessoas que eu sempre mais quis na vida devido a um passado que eu agora não posso mudar. Não posso mudar. *respirar fundo* Não posso mudar.
Há também um lado luminoso. É claro. É preciso conjugar os dois. Aprender a viver com isso. Manter o equilíbrio.

Lixado é não conseguirmos.

Lixado é não conseguirmos.

* sonya

sábado, 19 de janeiro de 2008

A casa

Ao som de: Dead can dance - Summoning of the muse

Aquela casa cinzenta, com telhado verde pálido, que povoa os meus sonhos...
É um enorme casarão, com a tinta manchada, imponente, solitário, mesmo no meio da cidade.
Hoje aproximei-me do portão. Alto, austero, ferrugento, fechado. Em redor do quintal pairava um cheiro forte a humidade, a bafio, a madeira apodrecida debaixo dos pés de muitas gerações. Um cheiro a almas solitárias, vagabundas e amarguradas. Do lado esquerdo do portão, duas campaínhas. Estará lá dentro alguém para as ouvir? Ou apenas os ecos das memórias responderão, se eu tocar?
Chove de mansinho, o que acentua ainda mais o cheiro do tempo, infiltrado em cada canto daquele espaço. Para as traseiras da casá, dá uma enorme varanda, toda feita de janelas de vidro, do chão até ao tecto. Vazia. Completamente vazia.
Tudo parece abandonado. Desde os telhados de cor verde esbatido, de tão fustigado pelas estações, até à madeira dos caixilhos das janelas, com a tinta branca a estalar.
O silêncio é sepulcral. A aura de misticismo que a envolve hipnotiza-me. Pelo portão da frente, nada dá para vislumbrar. É demasiado alto e os muros são fortalezas.
Casa perdida...que histórias contas tu? Quantas vidas já conheceste e viste partir? Quantas lembranças te ficaram? Que fantasmas te habitam? Que segredos guardas? Abafas ecos e gritos nas tuas paredes? Tens gravadas lágrimas no teu chão? Escondes um grande amor do cruel julgamento do mundo?
Anseio conseguir encontrar uma entrada para aquela casa. Tocar-lhe nas paredes frias e envelhecidas. Fotografar cada recanto, cada pormenor. Desejo ardentemente conhecer cada divisão, descobrir o caminho para aquela varanda desabitada.
Casa desolada e sombria, casa esquecida, casa encantada...que fascínio é este que me prende a ti?
Sonho preencher-te com cheiros de mil incensos, tons violáceos, texturas que me confortem a alma, músicas que me alimentem o espírito, gatos a moverem-se silenciosamente...e na varanda, rosas e o meu piano.
As minhas mãos tremem, com vontade de tentar abrir o ferrolho do portão. Mas fico apenas ali, parada, de coração aos pulos, esvaziada de toda a coragem. Não me pertences, casa das minhas fantasias...
Afasto-me lentamente. Ao longe, já consigo ver a fachada da casa, até então escondida pelo potão imponente. E eis que...vejo luz lá dentro! Uma das janelas do piso inferior tem luz!
Alguém que zela prla sobrevivência de um tão belo espaço?
Um ser solitário, que se arrasta pelos corredores bolorentos e recorda saudosamente os tempos passados?
Quem? Quem? Alguém?
Podemos sentar-nos nas escadas de pedra ao entardecer. Podemos ficar em silêncio, se assim o preferir, refugiados nos nossos pensamentos mais secretos...mas deixe-me entrar! Deixe-me cheirar as reminiscências que ainda pairam no ar, deixe-me sentir a presença de todo um passado que não pode estar condenado a morrer, deixe-me ouvir as conversas perdidas no tempo, o ranger das madeiras, o soprar do vento...deixe-me dançar na varanda e plantar rosas!
Deixe-me entrar...

...

Talvez um dia...encontre o trilho certo para alcançar a tal casa cinzenta, com telhado verde pálido, que povoa os meus sonhos...


Morgan Le Fay

Um dia

Hoje estou demasiado sensitiva. Para além dos meus próprios monstros, que esta manhã decidiram acordar, sinto as vibrações dos que me rodeiam.
O senhor do café, que fala rispidamente com outra pessoa...sinto uma vontade irracional de me esconder e chorar, sinto-me nauseada, como se o discurso agressivo fosse para mim.
O senhor na paragem do autocarro, que não pára quieto. Toda a sua agitação está a pôr-me louca! Páre, páre, PÁRE!
Chega um autocarro.
Fujo.
Sento-me nos bancos do fundo.
Cheira mal.
Corpos vivos em putrefacção. Cheira a infelicidade, a desgraça, a degredo...cheira a desespero, cheira a pobreza de espírito.
Tento inspirar profundamente mas sufoco a meio. Sinto os pulmões colapsados, por não terem há muito tempo um motivo para respirar descontroladamente, apaixonadamente...
Fecho os olhos mas o cheiro de todos aqueles cadáveres permanece em turbilhão no meu cérebro. Quero gritar, quero chorar!
Agora soluço sem lágrimas. Grito sem som.
Estou louca...ainda me sobra um mínimo de sanidade para perceber que estou louca...
Um sonho e uma música, foi o que bastou para abalar o meu frágil equilíbrio...
Até quando?
Liberta-me...


Morgan Le Fay

Aula

Os teus olhos mudam de cor.
(Escala de Dó maior, depois duplicas a velocidade)
Hoje estão verdes.
(Tens metrónomo em casa? Tens de comprar que é importante...)
Da última vez que te vi estavam azuis.
(Descontrai o braço, são os dedos que tocam!)
...Mudam mesmo de cor...
[uma piada oportuna]
Dou uma gargalhada.
Adoro o teu humor.
Adoro as nossas conversas.
És inteligente...acho-te muito inteligente, apesar de habitarmos "pólos opostos do universo"...haverá algo mais em que nos identificamos para além do piano?
Provavelmente não...
Mas adoro conversar contigo!
A tua forma de te expressares é cativante, prende. A tua voz acalma. O teu sentido de humor é tão oportuno...
E quando tocas...entro noutra dimensão. É pura magia...
E quando atiras os teus caracóis para cima do piano...
E quando prendes uma madeixa atrás da orelha...
E quando a tua mão desliza docemente pelo meu braço, pele com pele...
(Descontrai os músculos do braço! Relaxa, senão nunca vais conseguir tocar rápido...)
E o cheiro do tabaco que se desprende da tua roupa...é reconfortante...
(Eu já vi que tu és muito nervosa...só não entendo porquê!)
Porque os teus olhos mudam de cor...

...

Porque é que procuro sempre o impossível para satisfazer os meus sonhos? Porque é que me alimento somente de ilusão?
Eu não sou, de modo algum, alguém que te suscite interesse! No máximo, curiosidade. A mesma curiosidade que se sente ao ver um anão na rua, por exemplo. Durante uma hora, semanalmente, sentes curiosidade. O resto do tempo sou apenas mais uma fonte de rendimento. Pago-te para aprender.
E aprendo...muito mais do que notas e técnicas...
Aprendo os teus gestos.
Aprendo o teu sorriso aberto.
Aprendo as linhas do teu cabelo.
Aprendo que os teus olhos mudam de cor...
...e esforço-me para que os meus permaneçam imutáveis, escuros, sem arco-íris nem estrelas, quando surges e chamas o meu nome.

(Raquel, os teus dedos são perfeitos para tocar piano...)

****, os teus olhos mudam de cor...


Morgan Le Fay

Madrugada

Ao som de: Dead can dance - The host of the seraphim

Às 6h da madrugada, o silêncio é mais silêncio.
Daqui a poucos minutos o mundo vai começar a acordar, mas por agora, sou só eu e o silêncio. Completo. Não se ouve nem o respirar da terra adormecida. Não se ouvem nem os sonhos que povoam o imaginário dos seres que permanecem entregues ao domínio de Morfeu.
Fecho os olhos no escuro e tudo é silêncio.
Até os meus pensamentos incessantes, corrosivos, atormentados...estão em silêncio.
Silêncio.
Durmo.


Morgan Le Fay


Algo de estranho se passou em Snt Apolónia!
Tu estavas lá todos os dias. A tua face negra despertava a minha curiosidade todos os dias. Todos os dias davas-me vontade de me sentar ao teu lado. Todos os dias adiei por medo.
Ontem estavas lá, hoje, nem restos da tua casa. Para onde foste?
Aquele lugar vazio está frio. já só serve de abrigo aos burgueses atacados pela chuva.
Onde estás tu, jovem negra do museu militar?
Irei eu voltar a ver o teu rosto a dormir no frio?
De certa forma tenho medo do que te possa ter acontecido...
Mas no espirito, estou aqui, jovem negra sem nome, sem rosto, sem casa!

Nathalie

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Vejam como as coisas são…
Simples, complexas, uma mistura de tudo no meio do nada. Inspirados por uma vaga de frio, de cinzento, de nada, de preto e branco e de multicores.

Hoje sou um poço de não sei o quê. Indefinidamente inspirada por aquela música que alguém criou com empenho.

Não estou totalmente sozinha, mas aqueles que estão comigo fazem os sozinhos do espaço.
Somos minorias auto-intituladas. É-nos um prazer. Um estado de vida necessário. Um asilo a esta sociedade a que todos pertencem, mas que nem em todos se encaixa.

Carregamos seres humanos dentro de nós. Somos um transporte de vida e queimamos as nossas células com puros caprichos.

Partimos sem perceber porquê, partimos com beijos…

sábado, 5 de janeiro de 2008





Nathalie
Algo de estranho invade este conjunto de seres humanos. Parecemos ir todos no mesmo barco e que a tempestade levou consigo todos os tripulantes.
A divindade que todos admiram parece atraiçoar e condenar os pecados. Ou talvez o problema seja a falta de tempo para as rezas…
As rugas do teu avô sentenciaram a sua vida. Talvez até seja pecado a sua morte me inspirar, mas a realidade é que a verdade crua da vida assusta-me a obriga a libertar-me.
Amanhã pode ser o início do fim ou o fim da tortura. Os meus olhos enchem-se de dor quando te imagino naquela cama desconfortável. A casa onde habitei a ser demolida. Tudo porque os fantasmas que a assombram sugam a tua energia. A dor da tua partida simplesmente me assusta. A tua vida é a minha.
Estamos na época da neve colorida, mas este ano, ela simplesmente tinha o rasto dos óleos. A mesa esteva mais cheia que o normal mas eram rostos forçadamente novos. Tu dançaste o teu corpo como que se ele te tivesse trazido simples vida, mas condenou-te a quase todos os males do mundo, pouco profundos, mas muitos.
A única alegria que existe assenta naquela noite mágica em que a argolinha prateada envolveu o meu magro dedo. Naquela noite, fim-de-semana prévio ao Natal, dormimos juntos como um casal na sua casa. “Expulsaste-me” do quarto para a magia. A caixa de música fazia balancear os reis, donos do castelo do nosso mundo, tu rei e eu rainha, e nas coroas, lá estavam as argolinhas a brilhar intensamente. Descemos a terra em direcção ao rio, num percurso, talvez vulgar mas, mágico naquele momento. Estávamos no alto de S. João e deslizámos pela Morais Soares até à Praça do Chile. De repente estávamos nos Anjos e caminhávamos para o Intendente. Depois de um susto negro passámos para o Martin Moniz ansiando chegar ao Rossio. Neste espaço vimos calças a ficarem molhadas e geladas. Na Baixa, a rua Augusta estava iluminada e ao som da música, o fogo-de-artifício iniciava a beleza dos céus. Parámos no antigo ponto de comércio, e com as luzes da praça deliciamos a falsa e fosca luz que iluminava o piso. Por entre grades admirámos o Tejo, seguimos a sua margem até ao Cais do Sodré na busca por alimento. Alimentados como um fino casal, voltámos ao frio em busca do Chiado. Percorremos os Restauradores e, junto do Coliseu, numa marisqueira com um ar simpático, sentámo-nos deliciando a gentileza do empregado. Entrámos na serpente metálica e corremos até à Alameda. De lá, terminando a última hora, voltámos ao ponto de partida, como dois apaixonados, tolos.

Casal de Cambra, 27 Dezembro 2007
1 ano…


Nathalie
Sociedade encurralada nas mentes humanas, que pouco têm de manas. Nojento julgamento que vive nas células dos vivos, como vitaminas existenciais, desprovidas de sangue quente.
Aceitáveis cabelos loiros e despersonalizados cintos amarelos e brancos. Pinturas de disfarce para rostos maléficos, impessoais e vulgares. Pensamentos, alcoólicos e nocturnos, pertencem a vocês, meninas limitadas.
São repugnantes esses teus passos nos corredores. Transbordas a banalidade e são notáveis os teus passos engraxados.
O teu corpo esbelto e o teu cadáver usado mostrar-te-ão a imbecilidade de desejar ser amado sem amor.

Casal de Cambra, 12 Setembro 2007, Quarta-feira


Nathalie