Ao som de: Charon - Sorrowsong
Entrei no metro, num dia como tantos outros, e encostei-me no lugar do costume. Ao meu lado uma mulher proferia palavras ríspidas para o filho (mais um miúdo irritante, pensei eu). Por mera curiosidade, olhei na direcção da criança...e foi então que o meu coração ficou esmagado de encontro ao peito, quando me deparei com a quantidade de tristeza que cabia naqueles olhos.
Era um menino rico, de uniforme do colégio, com aulas de música (a julgar pelo instrumento que trazia num estojo, um violoncelo talvez), a sua educação era impecável...mas tratava a mãe por "você" e os seus olhos verdes estavam rasos de lágrimas contidas, lágrimas que secavam antes de cair e davam uma tonalidade acinzentada ao seu olhar de menino. Não era "birra" de criança mimada, não era revolta, não era mágoa sequer...era simplesmente tristeza. A tristeza profunda de quem nunca conheceu outra realidade e se conformou com o seu destino.
Numa criança...
Contive-me para não chorar a olhar para ele. Apeteceu-me pegar-lhe na mão e fugir dali a correr!Saberá ele o que é correr? Sentir o vento no rosto e estragar os sapatos? Rebolar na relva? Subir às árvores? Brincar no meio de animais, cair, esfolar-se, encher o peito de ar e pensar que não existe amanhã? Terá ele feito piqueniques no campo? Saberá os nomes dos pássaros e das estrelas? Alguma vez terá provado mel directamente de uma colmeia ou bebido água num regato, de joelhos? Terá ele uma história de encantar e um abraço terno antes de dormir?A minha cabeça latejava, ardia. E foi com as lágrimas a turvar-me a visão que o observei a desaparecer na multidão, de olhos sérios e compenetrados, como um mar sereno...mas vazio de vida.
Morgaine (Ranzita)
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
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