sábado, 19 de janeiro de 2008

A casa

Ao som de: Dead can dance - Summoning of the muse

Aquela casa cinzenta, com telhado verde pálido, que povoa os meus sonhos...
É um enorme casarão, com a tinta manchada, imponente, solitário, mesmo no meio da cidade.
Hoje aproximei-me do portão. Alto, austero, ferrugento, fechado. Em redor do quintal pairava um cheiro forte a humidade, a bafio, a madeira apodrecida debaixo dos pés de muitas gerações. Um cheiro a almas solitárias, vagabundas e amarguradas. Do lado esquerdo do portão, duas campaínhas. Estará lá dentro alguém para as ouvir? Ou apenas os ecos das memórias responderão, se eu tocar?
Chove de mansinho, o que acentua ainda mais o cheiro do tempo, infiltrado em cada canto daquele espaço. Para as traseiras da casá, dá uma enorme varanda, toda feita de janelas de vidro, do chão até ao tecto. Vazia. Completamente vazia.
Tudo parece abandonado. Desde os telhados de cor verde esbatido, de tão fustigado pelas estações, até à madeira dos caixilhos das janelas, com a tinta branca a estalar.
O silêncio é sepulcral. A aura de misticismo que a envolve hipnotiza-me. Pelo portão da frente, nada dá para vislumbrar. É demasiado alto e os muros são fortalezas.
Casa perdida...que histórias contas tu? Quantas vidas já conheceste e viste partir? Quantas lembranças te ficaram? Que fantasmas te habitam? Que segredos guardas? Abafas ecos e gritos nas tuas paredes? Tens gravadas lágrimas no teu chão? Escondes um grande amor do cruel julgamento do mundo?
Anseio conseguir encontrar uma entrada para aquela casa. Tocar-lhe nas paredes frias e envelhecidas. Fotografar cada recanto, cada pormenor. Desejo ardentemente conhecer cada divisão, descobrir o caminho para aquela varanda desabitada.
Casa desolada e sombria, casa esquecida, casa encantada...que fascínio é este que me prende a ti?
Sonho preencher-te com cheiros de mil incensos, tons violáceos, texturas que me confortem a alma, músicas que me alimentem o espírito, gatos a moverem-se silenciosamente...e na varanda, rosas e o meu piano.
As minhas mãos tremem, com vontade de tentar abrir o ferrolho do portão. Mas fico apenas ali, parada, de coração aos pulos, esvaziada de toda a coragem. Não me pertences, casa das minhas fantasias...
Afasto-me lentamente. Ao longe, já consigo ver a fachada da casa, até então escondida pelo potão imponente. E eis que...vejo luz lá dentro! Uma das janelas do piso inferior tem luz!
Alguém que zela prla sobrevivência de um tão belo espaço?
Um ser solitário, que se arrasta pelos corredores bolorentos e recorda saudosamente os tempos passados?
Quem? Quem? Alguém?
Podemos sentar-nos nas escadas de pedra ao entardecer. Podemos ficar em silêncio, se assim o preferir, refugiados nos nossos pensamentos mais secretos...mas deixe-me entrar! Deixe-me cheirar as reminiscências que ainda pairam no ar, deixe-me sentir a presença de todo um passado que não pode estar condenado a morrer, deixe-me ouvir as conversas perdidas no tempo, o ranger das madeiras, o soprar do vento...deixe-me dançar na varanda e plantar rosas!
Deixe-me entrar...

...

Talvez um dia...encontre o trilho certo para alcançar a tal casa cinzenta, com telhado verde pálido, que povoa os meus sonhos...


Morgan Le Fay

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