Ao som de: Spelling Nadja - Show me dreams
Mordo o lábio enquanto tocas.
Baixo o olhar para o teclado quando sinto os olhos repletos de lágrimas. Não posso chorar. Não me podes ver chorar. Não, não, não!
(Estás a perceber até agora?)
Aceno que sim com a cabeça. Por instantes tinha-me perdido em pensamentos vagos e deixado de tomar atenção aos acordes.
Abandono-me à melodia e aos movimento dos teus dedos. A emoção toma conta de mim. Ficaria suspensa em momentos assim, se me fosse possível. Mas o relógio não pára. 60 minutos semanais.
("RRáquêl", sabes que eu não gosto disto assim...temos de andar para a frente com isto!)
Não estás contente comigo. Isso desorienta-me ainda mais. Sei bem que não tenho correspondido às expectativas...mas eu não sou como tu! Sou instável...demasiado dispersa...
Toca apenas! Deixa-me ficar a ouvir. Não páres para me recriminar. Hoje a angústia que sinto é física, palpável. Só quero ser submersa pela tua música, por ti...hoje a solidão que tenho em mim é insuportável...
(O que é que fazes sábado à noite?)
O véu que se havia formado entre os meus olhos e a realidade levantou-se bruscamente. Balbuciei "Hum?".
(O que é que fazes sábado à noite? Era para te fazer um convite. Vou tocar num bar e era pa ires ver o género de música que eu realmente toco...às vezes tem-se uma ideia errada do professor...)
Cabeça entra em turbilhão.
Alargar a tua presença para lá das paredes da sala de aula?
Transportar-te para o mundo lá fora?
Inserir-te na minha realidade quotidiana?
Quebrar por momentos a relação professor/aluna?
...
Como desejo ir...
Eu sei o género de música que tocas. Acerca disso não alimento ilusões. Aquilo que ouvimos é tão semelhante como o sol e a neve.
Mas não importa. Quando fazes soar o piano tudo se transforma, tudo se relativiza, quer toques o "Malhão, malhão" ou o "Atirei o pau ao gato".
Quero ir! Quero sentar-me no escuro, na multidão...e ficar horas a ouvir-te e a escrever sobre cada movimento que fazes, a contar o número de vezes que o cabelo te cai para o rosto, a interiorizar as tuas expressões...a sonhar-te em segredo.
Contraio-me por dentro.
Engano-me nas notas.
Volto a enganar-me.
Corriges os meus dedos gelados e inseguros.
Aproximas-te.
A tua mão cai-me para a perna acidentalmente.
Estremeço.
De perfil os teus olhos são verdes. De frente são azuis. Mais uma ilusão, como tudo o que vive em mim.
Tictac tictac tictac
(...e pronto...próxima aula quero isto feito)
Não. Ainda não. Mais um bocadinho. Toca mais um bocadinho.
***
N.- Uma frase desta música diz: "A real woman knows a real man always comes first" É um bocado machista.
E hoje em dia já não é nada assim! O que é que vem em primeiro lugar numa relação?
Eu- Tudo, menos...
N.- ...a outra pessoa!
Eu- Exacto...
N- Temos de fazer aquilo que gostamos, o que nos faz sentir bem...Tenho colegas que se a namorada pedisse "Ah...deixa a música...e mais isto e aquilo" Xau xau!
Eu- Pois...eu a partir do momento em que me apetecia mais ir para a clínica do que estar com o meu namorado...fui para a clínica...
N- ...estas coisas às vezes são complicadas...
Eu- São sempre complicadas.
E cada vez mais.
Cada vez mais.
Enterro-me. Cavo a minha própria sepultura. Com as minhas mãos.
Perco-me.
Deleito-me com a magia do impossível, do abismo...
Sábado...
...sábado...
Ir é consagrar-me perdida.
Não ir é fugir.
Ir é ferir-me com a minha inconsciência.
Não ir é ferir-me em plena consciência.
É mais uma cicatriz garantida.
Divirto-me a fazê-las e a coleccioná-las.
É a única explicação plausível.
Sou louca.
Ou estou louca.
Morgan Le Fay
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
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