
Encontrámo-nos, velhos, perguntaste-me se a minha vida tinha corrido bem, respondi-te que desde o dia em que me tinhas morrido no peito consegui deixar o teu corpo para trás.
Olhaste para mim, ambos temos as feições cansadas, corroídas, rasgadas pelo tempo, tempo que não me chegou para te ter, tempo que não te chegou para me veres. Conversámos como nunca antes, contei-te os corpos aos quais dei prazer, contaste-me os que te deram prazer a ti... rimo-nos da insignificância que todos tiveram, da forma como os usámos todos.
Quando falámos da velhice, contei-te que a dada altura te imaginei a meu lado, e que afinal até estavas, mas não como eu queria... reparámos que as nossas vidas divergiram, andámos, matámos a sede nos mais ricos lagos, e que velhos, gastos estávamos ali...
Apercebi-me que ainda tinha a marca do teu cadáver sobre o meu corpo, que o peso das tuas mãos nunca me saiu dos ombros, que o beijo que em sonhos me deste no pescoço ainda me deixava sem respirar... olhei nos teus olhos, cansados de olhar o mar, fitei os teus pulsos, vi que já não me lembravas, reparei porem que o meu sangue ainda te pertencia, desde revoluções remotas no meu corpo, autenticas batalhas travadas na mente, todo ele tendia para ti, como metal atraído pelo teu magnético ser.
Queria mentir-te então, dizer-te que desde que morreste nem mais uma noite sonhei contigo... mas não conseguía, reparaste que ainda me tinhas por inteiro embora tu não desses nem metade de ti... Quis sair, virar-te costas, talvez me perseguisses como em sonhos, talvez ficasses sentado a ver-me ir, de qualquer maneira, queria deixar-te para trás, enquanto desta vez, eu, triunfante te escapava a ti...
Nós, velhos, cansados, gastos, caídos, ainda existimos na minha cabeça, ainda me vais pesando o peito, e ainda te trago às costas!
Texto por Brainstorm
Foto por Cristian N.
1 comentário:
*vénia* Sente-se cada palavra na pele...doi a alma ao lê-las...
entendo esse sentimento tão forte como se o lesse de dentro de mim...
Morgan Le Fay
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